Conto, Pobre Cardeal, 1886

Pobre Cardeal!

Texto Fonte:

Relquias de Casa Velha, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em A Gazeta de Notcias, 6 de julho de 1886.

Martins Netto costumava dizer que
era o homem mais alegre do sculo, e toda a gente confirmava essa opinio.
Ningum lhe vira nunca nenhuma sombra de melancolia. J maduro, era ainda o
melhor acepipe dos jantares, um repositrio de ditos picantes, anedotas
joviais, repentes crespos e crus; mas, alm disso, que  a despesa exterior da
alegria, ele a tinha em si mesmo, no sangue e na vida. Pouco antes de morrer,
em 1878, dizia ele a um amigo ntimo, que lhe invejava o temperamento:

 Sou alegre, muito alegre; mas se
disser a voc que a isto mesmo devo uma grande amargura...

Calou-se, deu duas voltas, e
tornou ao amigo:

 Vou contar-lhe uma coisa
secreta, como se me confessasse a um padre. Sabe que fui um dos julgadores do
famoso processo de letras falsas Joo da Cruz, em 1851. Houve nessa sesso do
jri muitas causas importantes, que eu julguei com a inflexibilidade do
costume, e condenei muita gente, do que me no arrependo.

Na vspera de entrar o processo do
Joo da Cruz, estive com um tal capito Jos Leandro, que morava na Rua da
Carioca; falamos do processo, das letras, de mil circunstncias, que me
esqueceram, e, finalmente, do prprio Joo da Cruz, que o capito Jos Leandro
dizia conhecer desde menino. O pai deste capito foi um general portugus, que
veio com o rei em 1808, e aqui casou pouco depois com uma senhora de Cantagalo.
Jos Leandro era menino quando Joo da Cruz apareceu em casa dele, na Rua de
Mata-cavalos; lembrava-se que ele os festejava e adulava muito; lembrava-se
tambm que ali pelos fins de 1816 andava Joo da Cruz muito por baixo, beirando
a misria, roupa de ano, amarela de uso, mal remendada...

E ento, para mostrar-me que o
Joo da Cruz nascera com o gnio da fraude e da duplicidade, contou-me que um
dia, em 1817, estando ele e a me em casa, apareceu ele ali angustiado,
desvairado, bradando:

 Pobre cardeal! pobre cardeal!
Ah! minha senhora D. Lusa, que grande desgraa! pobre cardeal!

D. Lusa levantou-se assustada, e
perguntou-lhe o que era, se falava do general...

 No, acudiu Joo da Cruz, no 
nada com o digno marido de V. Excia.; falo do cardeal! pobre cardeal!

 Mas que cardeal?

Joo da Cruz tinha-se sentado,
suspirando grosso, esfregando os olhos com um trapo de leno. A dona da casa
respeitou-lhe a dor, que parecia to profunda e deixou-se estar de p,
esperando. Mas no tardou que ouvissem no saguo da casa um rumor de espada;
era o general que entrava. Da a pouco estava ele  porta da saleta, e dizia 
mulher que acabara de morrer o nncio, cardeal Caleppi; morrera de um ataque
apopltico.

D. Lusa olhou espantada para ele
e para Joo da Cruz. Foi s ento que o general o viu, a alguma distncia, de
p, cheio de respeito e melancolia.

 V. Excia. j sabe ento da
triste notcia? Morreu um santo homem, santo e magnfico, sem desfazer nas
pessoas que me ouvem; ah! um varo digno do cu!

 Entrou aqui, disse D. Lusa, h
poucos instantes, fora de si com a morte do cardeal... Eu nem me lembrava que
cardeal podia ser. Se ele tivesse dito que morreu o nncio...

  verdade que entrei fora de
mim; a tal ponto, que pratiquei a grosseria de sentar-me diante de V. Excia.,
estando V. Excia. de p; mas a dor desvaira. Acabavam de dar-me a notcia, ali
ao p da Lagoa da Sentinela, e fiquei como no podem imaginar; fiquei tonto,
entrei aqui tonto.

O general sentou-se espantado;
disse ao Joo da Cruz que se sentasse tambm, e perguntou-lhe desde quando
conhecia o cardeal, e se era assim to amigo dele. Joo da Cruz no respondeu
logo verbalmente; fez primeiro um gesto de afirmao e saudade; depois levou o
trapo aos olhos. D. Lusa, sentada ao lado do marido, olhava compassivamente
para o pobre homem. Este, afinal, confessou que era amigo do grande prelado,
por benefcios que recebera dele em Lisboa. Aqui no o procurou seno duas vezes: logo que chegou, em 1814, e quando uma vez Sua
Eminncia estivera doente. Se nunca falou disso ao honrado general, foi porque
as humilhaes por que passou e lhe trouxeram o conhecimento e o trato do
cardeal (que Deus tinha!) foram amargas e dolorosas.

 Bem, mas agora...

 Agora direi tudo, se V. Excia.
assim o ordena.

E depois de limpar os olhos
vermelhos:

 Foi em Lisboa, ali por 1806;
tendo chegado de Gnova e passando por alto uma gramtica italiana, lembrou-me
ensinar esta lngua. Confesso que pouco ou quase nada sabia dela; mas ensinando
ia aprendendo. Nisto fui denunciado como espio dos franceses, e metido na
cadeia. Imagine V. Excia. com que dor recebi semelhante afronta; felizmente,
provado o engano da denncia, fui solto da a poucos dias. Contente da justia
que me fizeram, fiquei admirado da prontido, e c fora  que soube que esta
fora devida ao cardeal. Corri a agradecer-lhe o favor; mas Sua Eminncia
negou-o uma e duas vezes, at que confessou a verdade. Desde que soube que a
denncia era falsa correu logo ao ministro, para obter a minha soltura, e
obteve-a. Mas qual foi a causa de inspirar a Vossa Eminncia to singular
beneficio? perguntei eu. Confessou-me que s porque soubera que eu ensinava
italiano; s por isso, e sem que me conhecesse, estimava-me.

 Ah! bem compreendo, disse o
general.

 Foi o que me ligou a ele; fez-me
depois alguns obsquios, e quando eu lhe confessei que pouco italiano sabia, e
que me dei a ensin-lo com o fim de propagar o amor de to divino idioma, ento
ele props-me dar algumas lies. Sobrevieram os acontecimentos de 1808. A corte transportou-se ao Brasil, e o cardeal, no ato de embarcar, instou comigo para que
viesse tambm; recusei, dizendo-lhe que ia alistar-me no exrcito que devia
expulsar o prfido invasor...

 Bravo! disse o general.

 Sua Eminncia, no podendo
arrancar-me daquele propsito, despediu-se de mim com muitas lgrimas, e deu-me
em lembrana um exemplar de um poema em italiano, anotado por suas sagradas mos,
livro que me foi roubado, tempos depois, por um soldado de Napoleo, um
miservel... Para que o queria ele? Naturalmente ia vend-lo. Que preo podia
dar esse herege a um objeto de tanta valia?

Joo da Cruz disse aqui coisas
duras ao soldado e a Napoleo, chamando-os literalmente ladres de estrada.
Concluda a descompostura, levou o trapo aos olhos; o general procurou
consol-lo.

 A morte  caminho de ns todos,
disse ele, e demais o nncio j estava com os seus setenta e tantos anos. Em
todo o caso aplaudo os seus sentimentos, so naturais de um bom corao.

 Muito obrigado, acudiu Joo da
Cruz; pode V. Excia. estar certo de que se me dissesse o contrrio, eu
duvidaria da minha dor. E tanto prezo o seu conselho, que desejava saber se
pareceria afetao que eu deitasse luto por to grande homem.

 No me parece que seja...

 No? Pois vou p-lo; no direi a
ningum o motivo, como digo aqui, pois  s para a alma dele, que me
agradecer... Pobre cardeal... Vou ver...

Como o general se levantasse e
fosse para dentro, Joo da Cruz ficou um pouco vacilante, ao que parece; ento
a me de Jos Leandro disse-lhe que ficasse para jantar.

 Agradeo... agradeo... Vou ver
se arranjo... se posso...

Disse isso, entre pausas e
suspiros, olhando para a roupa; mas D. Lusa pegou no filho pela mo e
retirou-se da sala. Joo da Cruz saiu; chegando ao saguo parou e no vendo o
porteiro que estava no ptio, ao fundo, e que depois contou o caso  famlia,
fez um gesto de desespero, dizendo:

 Esta gente ainda est mais
defunta que o cardeal.

Jos Leandro cuidou logo de ver as
exquias, e pediu ao pai que o levasse; o pai noticiou  mulher que el-rei
ordenara grandes honras ao finado; o cadver, embalsamado, ficaria em casa trs
dias, celebrando-se diante dele missas e responsos. O enterro seria em Santo Antnio. No se falava de outra coisa. Mas nessa noite aconteceu adoecer o general;
sobre a madrugada foi sangrado; a molstia agravou-se; era impossvel levar o
filho s exquias. A me no havia de abandonar o marido. Jos Leandro, criado
a mimos, teimava em querer ir, ainda que com um escravo; mas a me vendo que um
escravo no poderia arranjar ao filho algum bom lugar na igreja, pediu a Joo
da Cruz o obsquio de o levar a Santo Antnio.

 Obsquio? diga obrigao, minha
senhora; mas V. Excia. sabe... que... que... eu... no poderei... sem...

O general concordou que era
constrang-lo a assistir ao enterro de um amigo que lhe deixara tantas
saudades... E voltando-se para o pequeno, prometeu lev-lo  procisso de S.
Sebastio, que era muito bonita, e que ele nunca vira. Jos Leandro reprimiu as
lgrimas; ficava uma coisa pela outra; mas Joo da Cruz fez logo uma descrio
vivssima das exquias, disse que seriam to pomposas ou mais que as da rainha
D. Maria I, no ano anterior; falou em cinco bispos, muitos frades, tochas e
coches reais, tropa... uma coisa nica. O menino agarrou-se-lhe que o levasse.
Joo da Cruz no se negava a isso, uma vez que era vontade de pessoa to
distinta; nem o cadver de um amigo eminente era espetculo de fazer recuar a
uma alma rija. Ao contrrio, esse ltimo encontro dava fortaleza ao corao...

 Bem, se no h dvida... disse o
general.

L isso, pedia licena para dizer
que sim, que havia sempre uma dvida, uma triste dvida, uma coisa que o
vexava; no lhe perguntasse o que era, no o podia dizer sem lgrimas... Mas se
o general insistisse em saber, ele fecharia a boca, falariam por ele aquelas
miserveis calas de cor. Tinham sido pretas algum dia, mas o tempo... e tudo o
mais, tudo, at os rasges dos sapatos. Era luto aquilo? era luto apropriado a
um prncipe da Igreja? etc., etc. No, no; o menino que esperasse a procisso,
que fosse a ela com seu ilustre pai; deixasse as exquias, por mais que fossem
de estrondo...

 De estrondo? interrompeu o
pequeno.

E chorando, chorando, pediu outra
vez que o levasse. O pai na cama agitava-se, sem saber o que fizesse; era
avaro, diziam, e custava-lhe abrir mo de algumas patacas. Teimou com o filho,
o filho com ele, at que, desesperado:

 Joo da Cruz, disse o pai,
entenda-se com esta senhora, a respeito do luto; leve uma recomendao minha ao
alfaiate e ao sapateiro. Tambm precisa de chapu? H de haver algum servido c
 em casa... Ela que lho d... Vo e deixem-me em paz!

Foi assim que ele arranjou a roupa
nova,  embora de luto  luto que fosse, era nova. Jos Leandro lembrava-se
ainda das exquias, quando me contou este caso; tinha diante de si a figura
pomposa de Joo da Cruz, vendo e ouvindo tudo com interesse de pessoa estranha.
Ensinava-lhe o nome de tudo, cerimnias e alfaias, os dois bispos, que eram
cinco ou seis, mas ele s se lembrava do de Angola, e do de Pernambuco, e os
das ordens religiosas, e os de alguns cnegos. De quando em quando esticava o
brao, e mirava-se. Com o andar das horas ficou at alegre. C fora, ladeira
abaixo, vinha falando da bonita festa e recitando-lhe pedaos inteiros do
sermo. No Largo da Carioca entraram na sege que os esperava;  porta de casa,
 que Joo da Cruz ps outra vez os culos da melancolia, desceu trpego e
entrou.

No imagina como achei esta
anedota engraada; Jos Leandro contava bem,  certo, mas toda essa histria
pareceu-me engraadssima. Ria-me a no poder mais, e repetia a exclamao que
fez render a roupa ao outro. Pobre cardeal! J entendeste que ele nunca trocou
uma s palavra com o nncio, e se o viu algum dia, foi na igreja ou de coche;
mas mentia com tanto aprumo, a inveno era to graciosa e pronta, a peta to
bem concertada, aproveitados todos os incidentes, que era difcil no cair na
esparrela. Mas, realmente, a coisa tinha graa; agora mesmo, aps tantos anos,
acho-lhe muito pico. Mas, vamos ao resto; eis aqui o que eu s confiaria a Deus
ou a voc.

No dia seguinte fui para o jri,
com a anedota fresca de memria, at porque sonhara com ela, tanto que acordei
rindo. Cheguei a tempo, e fui logo sorteado para o conselho de jurados. Quando
vi o ru, no pude deixar de sorrir. Era aquilo mesmo, devia ter sido assim no
dia do bito do nncio; cabea um pouco torta, olhos mortificados e baixos,
tipo de astcia. No parecia velho, apesar dos anos longos e desvairados; devia
contar uns sessenta e tantos, perto de setenta. Trazia raspado o lbio
superior, e toda a mais barba, grisalha e fina, dava-lhe ao rosto muita
gravidade. De quando em quando tomava rap; reparei logo que a boceta era de
ouro.

O interrogatrio durou cerca de
quarenta minutos. Joo da Cruz respondeu claro e firme, negou a autoria da
falsificao, explicou algumas contradies que lhe assacaram. Confesso-lhe que
ouvi as respostas dele com interesse e sem desprazer. De quando em quando a
anedota do cardeal vinha dar uma nota graciosa  situao. Imaginava-o ento em
Mata-cavalos, no tal dia, em frente do general, referindo as petas de Lisboa,
as desculpas, as lgrimas aparentes, at o desfecho. L, engenhoso era ele, e
divertido. No pude atender  leitura do processo; ouvi algumas pginas, depois
disse a mim mesmo que os autos eram grossos, e a leitura fastienta...

No era isto; era a narrao dos
feitos do ru que comeava a constranger-me. Para distrair-me entrei a mirar a
beca do advogado, a cara dos meus colegas do conselho, a cabeleira do escrivo,
as suas do juiz, e finalmente o retrato do imperador, que pendia da parede.
Aqui foi maior a distrao, porque cuidei de recordar as festas da coroao,
tanto as pblicas como as particulares, entre estas um banquete a que fui, e no
qual ouvi recitar duas odes bem bonitas. Quis recomp-las e no pude; trabalhei
de memria, e fui arrancando ora um verso, ora outro, alguns truncados, e
quando dei por mim, acabara a leitura.

Ouvi depois a acusao, que me
deixou em alternativas de acordo e desacordo; veio, porm, a defesa e
equilibrou-me o esprito. Minha alma sentia grelar um gro de simpatia, ou
outra coisa, que desafiava a causa do Joo da Cruz. No podia olhar para ele
sem sorrir; de uma vez, para no rir alto, sufoquei uma tosse com o leno. A
exposio do juiz durou pouco mais de quarto de hora. Os autos foram entregues
ao conselho e ns samos da sala.

L, na sala secreta, os debates
foram longos e complicados, mas no tanto como na minha conscincia; aqui  que
era preciso decidir. A justia dizia-me que condenasse, a simpatia pedia-me que
absolvesse, e o diabo  no podia ser outra pessoa  o diabo clama do fundo do
meu ser estas palavras: Pobre Cardeal! Ah! minha senhora D. Luiza! que grande
desgraa! Pobre Cardeal! E a minha conscincia ria, porque era amiga de rir. J
no negava o crime, mas punha na outra concha da balana a vergonha pblica, e
a priso longa; depois, os velhos anos do pobre diabo...

Enfim, contados os votos,
acharam-se divididos seis que sim, seis que no; ia decidir o voto de Minerva,
e o ru foi absolvido. Sa contente de mim mesmo; se votasse contra, teria
feito inclinar a balana, e era certa a condenao. Sa alegre; no contei nada
do que se passara dentro de mim, seno a voc agora; mas a anedota do cardeal
l foi correr mundo.

E foi ela que trouxe a absolvio
de Joo da Cruz; foi essa empulhao de 1817, jovial e pfia, que deu ao ru de
 1851 a minha simpatia e o meu voto, no por ser pfia, mas por ser jovial. Os
anos, porm, foram passando, e agora ainda que sou o homem mais alegre do
sculo, acho em mim este ponto negro de melancolia. Quem sabe? Pode ser que
este erro me condene no outro mundo.

 Tudo so mistrios
indecifrveis, respondeu o amigo ntimo do Martins Netto. Os fatos e os tempos
ligam-se por fios invisveis. Suponha que o Joo da Cruz no tem empulhado o
general em 1817, no teria sido absolvido pelo seu voto em 1851, voc no teria
uma ponta de remorso, nem eu este conto.

 Pobre cardeal!
